Conversamos com Marco Harbich, CEO/CIO da Gordon Capital, sobre como posicionar os investimentos para 2026, um ano que promete ter emoções muito fortes.
Considerando que 2026 deve ser um ano com emoções muito fortes, quais cuidados as pessoas devem ter com os seus investimentos?
O primeiro ponto que cada investidor deve observar é a sua tolerância ao risco. Isso porque em 2026 nós vamos ter uma série de eventos que podem trazer muita volatilidade, como uma eleição presidencial que pode gerar muitas turbulências e a troca de presidente do Fed, sendo que não se sabe se o novo presidente será mais dovish, ou seja, mais flexível ao corte de juros, o que pode gerar volatilidade.
O segundo ponto é que cada investidor deve fazer um levantamento de quais são os seus projetos pessoais. Isso porque se a pessoa tem um projeto de curto prazo, ou seja, até 6 meses, não adianta buscar investimentos que deem uma altíssima rentabilidade, mas sem liquidez imediata, para aproveitar esse prazo. Nesse caso, a pessoa tem que buscar investimentos com liquidez. Inclusive, como o próximo ano vai ter uma alta volatilidade, é o caso de se pensar em ter um pouco mais de liquidez para aproveitar, justamente, as oportunidades que essa volatilidade pode trazer.
Contudo, é preciso ter cuidado com a volatilidade, pois ela come dinheiro. Por exemplo, se você tolera uma volatilidade de 10%, coloca R$ 1 mil em um ativo e ele cai exatamente 10%, quando ele subir 10%, ele não vai voltar para R$ 1 mil, mas sim para R$ 990, ou seja, vão ficar faltando R$ 10 que foram comidos pela volatilidade. Dessa forma, para que não se tenha surpresas, é preciso buscar ativos dentro do perfil de risco e um pouco menos voláteis.
O terceiro ponto é que as pessoas devem buscar informações de profissionais de mercado certificados. Isso porque, como muitas pessoas investem por conta própria, elas não entendem e aplicam de acordo com a rentabilidade, sendo que os leigos precisam entender que se um investimento pode ter muita rentabilidade, é porque ele é mais arriscado.
Olhando para 2026, os investidores deveriam montar carteiras diversificadas, dentro dos seus perfis, mas com um pouco mais de liquidez, principalmente no primeiro trimestre, pois os candidatos serão definidos em março, quando teremos um pouco mais de certeza do que pode ou não acontecer, o que gera oportunidades. Outro ponto é que, independente do governo que assumir, nós vamos ter um cenário fiscal bastante preocupante.
A decisão de se proteger ou tirar proveito da volatilidade está relacionada ao perfil do investidor?
Além do perfil, você tem o momento de vida da pessoa e os prazos dos seus projetos. Se o investidor tem projetos de curto prazo, não é para tirar proveito da volatilidade, e sim do DI, mas se ele está pensando em algo de longo prazo, ele pode tirar proveito da volatilidade. Dessa forma, não é só o perfil, pois por mais que a pessoa possa ter um perfil de tolerância ao risco, existe o momento de vida e os seus objetivos. Agora, se a pessoa tem perfil, tolerância e reserva de emergência, ela pode tomar um risco um pouco maior. Com relação ao risco, é importante lembrar que o ser humano não é avesso a risco, e sim a perda Se não fosse isso, nós não teríamos o Tigrinho.
Como se posicionar na renda fixa em 2026?
Os títulos prefixados não são a melhor alternativa, pois dependendo de quem ganhar as eleições e das medidas que serão tomadas, eles podem render menos do que o CDI. As NTNs-B com prazo de 3, 4 anos, até um pouco mais, são uma boa alternativa, pois dependendo das medidas que forem tomadas, isso pode ter um impacto inflacionário. Por exemplo, uma NTN-B com prazo mais longo está dando quase 8% de juro real, o que é muito. Se considerarmos um prazo de 10 anos, o dinheiro dobra só com juros reais. Assim, para quem tem uma expectativa de longo prazo, uma NTN-B, que possui IPCA + juros, é uma boa opção.
Para o curto prazo, sem nenhuma dúvida, é o DI, como um fundo referenciado pelo DI, uma LFT ou um CDB atrelado ao DI.
Como disse, não é ruim que se tenha um pouco mais de liquidez no próximo ano para que se possa, justamente, aproveitar as oportunidades que serão criadas na renda fixa. Dependendo da política que vai ser tomada pelo próximo governo, o juro real, que já está muito alto, pode ser ainda maior. Outro ponto é que a NTN-B, com a expectativa de queda da Selic, pode ter uma valorização interessante, embora eu não veja uma queda de juros tão forte para o ano que vem.
Como se posicionar na renda variável em 2026?
Os investidores devem buscar empresas geradoras de caixa e oportunidades em small caps, que estão mais desvalorizadas, além de diversificar a carteira. Por diversificação, entenda-se a compra de empresas de segmentos diferentes, pois não adianta comprar cinco empresas de um mesmo segmento, como um investidor que só investe em ações de cinco bancos. Quando isso acontece, a pessoa não está diversificando, e sim pulverizando.
Outro ponto é que os investidores devem buscar profissionais especializados em equity, pois eles estudam as empresas que estão na bolsa.
Vale a pena investir no exterior?
Independente do momento, é importantíssimo investir no exterior por inúmeros motivos. Tomando como referência os Estados Unidos, só o volume da Apple é o volume da nossa bolsa inteira. As bolsas americanas negociam mais de 4 mil ações, enquanto no Brasil nós não temos 400. No mercado de renda fixa, o crédito privado tem um volume de US$ 13 trilhões, enquanto aqui o volume é de US$ 130 bilhões. Em termos de segurança jurídica, lá é maior que aqui. O mercado americano tem mais liquidez que o mercado brasileiro. Além disso, você tem uma redução do risco total da carteira, pois existe uma correlação muito baixa entre os ativos domésticos e os ativos internacionais.
Existem muitas oportunidades para se construir uma carteira lá fora, mas muitas pessoas acreditam em um mito de que é preciso ter R$ 1 milhão, R$ 2 milhões para investir no exterior. Não, não é preciso. Existem vários ETFs (fundos de índice) que podem ser comprados por US$ 1 mil, US$ 2 mil, ou às vezes por valores menores. Ou seja, você pode investir no exterior com poucas somas.
Contudo, existe um ponto que as pessoas devem ter cuidado. Se a carteira tiver mais de US$ 60 mil e o investidor falecer, o governo americano fica com 40%. A partir desse valor, é importante que a pessoa constitua uma offshore para preparar uma sucessão.
Como administrar a variação cambial quando se investe no exterior?
Quando se investe no exterior, o câmbio é, realmente, o que menos importa. Sendo bem sincero, quando o câmbio estava R$ 3, R$ 4 ou R$ 5, ele estava caro, então não é com o câmbio que você tem que se preocupar. Como existem vários motivos para se investir lá fora, o câmbio não vai ser um impeditivo para se fazer isso.
Independente do câmbio, o investidor tem uma grande probabilidade, pensando no longo prazo, de ter um lucro bastante interessante investindo no exterior.
Como montar uma carteira diversificada?
Antes de montar uma carteira, a pessoa precisa entender quem ela é, as suas necessidades, os seus objetivos de curto, médio e longo prazo, e a sua tolerância ao risco, além de montar um planejamento financeiro. Feito isso, a carteira começa a ser montada.
Aqui, nós entramos no conceito de diversificação. Se a pessoa tem um grande projeto de curto prazo, não adianta travar dinheiro e nem colocá-lo em risco, mesmo que ela tenha tolerância. Isso é o que chamamos de capacidade e de disponibilidade. Por exemplo, a pessoa pode ter disponibilidade, tolerância a risco, mas estar em um momento de pouca capacidade, ou seja, não superavitária.
Com relação aos ativos, a primeira diversificação é por macro classes, como renda fixa, renda variável, ativos no exterior e até mesmo ativos alternativos, se a pessoa tiver tolerância a isso, como fundos de participações, criptomoedas ou obras de arte. Definidas as macro classes, partimos para as micro classes. Na renda fixa, vai ser DI, pré ou IPCA? Na renda variável, vai ter multimercado? Se sim, que tipo de fundo multimercado? Vai ter derivativo? Vai ter ações direto ou através de um fundo? Vai ter ETFs? Se sim, quais tipos? Diversificar significa colocar um pouco dos recursos em cada uma dessas classes, pois se a pessoa coloca tudo em uma única classe, ela não está diversificando.
Eu costumo dizer que se uma pessoa tem uma carteira diversificada onde um ativo não está performando bem, isso quer dizer que a sua carteira está bem diversificada. Isso porque ela buscou ativos que possuem uma correlação baixa, quiçá negativa, entre eles. Neste caso, o investidor está melhorando o seu retorno e a sua expectativa de longo prazo.
Quando se cuida de investimentos, só se trata de investimentos?
Não, não se trata apenas de investimentos, pois é preciso pensar no todo, como a sucessão. Se a pessoa vier a falecer, ela tem um seguro, uma previdência ou um testamento? Se ela é sócia de uma empresa, o contrato empresarial tem algum instrumento para fazer a sucessão ou cláusulas protetivas que garantam a perpetuidade do negócio? Por exemplo, o contrato empresarial pode ter uma cláusula que impeça a entrada de um familiar que não entenda absolutamente nada do negócio e que apenas vai palpitar errado. Além disso, existe a questão dos benefícios fiscais. Recentemente, muitas pessoas deram saída fiscal do Brasil, pois, dependendo do montante envolvido ou do tamanho da família, a família fica mais preocupada com o benefício fiscal do que com a rentabilidade dos investimentos.
A perpetuidade do patrimônio depende de várias ferramentas, sendo que os investimentos são uma delas. Fazendo uma ponderação, 40% dessa questão estão relacionados aos investimentos, sendo que os outros 60% estão relacionados à governança.
Considerando a nossa conversa, você gostaria de acrescentar algum ponto à sua entrevista?
Como 2026 será um ano bastante turbulento e com importantes decisões que vão trazer volatilidade, esse é um momento para se ter mais precaução do que ousadia, até porque nós não sabemos quem será o próximo presidente da República, pois independente do atual governo permanecer ou da oposição entrar, nós teremos riscos, mesmo que diferentes. É por isso que, neste momento, é importante ter mais precaução do que ousadia.
