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Análise do Mercado de Câmbio e Perspectivas para o Dólar

Análise do Mercado de Câmbio e Perspectivas para o Dólar Participantes: Vittor: Apresentador Marco Harbich: CIO da Gordon Capital

Abertura e Apresentação

Vittor:

A cotação da moeda norte-americana segue no centro das discussões. O dólar insiste em ficar nesse patamar ali próximo de R$ 5,10. A dúvida é se a esse patamar ele pode se consolidar como um novo nível pro câmbio. Pra gente analisar esse cenário, as pressões sobre o dólar e as perspectivas pros próximos meses, a gente recebe o Marco Harbich, CIO da Gordon Capital. Marco, seja muito bem-vindo. Prazer ter você aqui.

Marco Harbich:

Olá, Vittor, muito obrigado. Bom dia a você e a todos.

Factores de Pressão no Câmbio e Projeções

Vittor:

Ah, muito bom dia, Marco. Marco, brincam no mercado que o mercado de câmbio existe para desmoralizar qualquer economista. E eu queria entender exatamente o que a gente pode projetar para esse mercado, dado esse cenário de muita volatilidade, muita incerteza, uma discussão sobre o nível de confiança na moeda norte-americana, em títulos também do governo dos Estados Unidos. O que a gente pode considerar nessa equação para conseguir pelo menos não ficar tão desmoralizado aqui nesse nosso bate-papo?

Marco Harbich:

Não, essa também tem aquela frase que é a famosa questão de 2 milhões de dólares, né? Então, acertar câmbio realmente é extremamente difícil. Eu acho que a gente tem que levar em consideração fatores que já existem há algum tempo: Oriente Médio, incerteza, a inflação lá nos Estados Unidos, que embora tenha tido uma queda, ainda está acima da meta.

A gente tem os fatores aqui, mas por outro lado o Brasil é um exportador de commodity. Então a gente tem uma expectativa ainda de entrada [de recursos], o diferencial de juros, e o investidor estrangeiro ainda vê muita oportunidade aqui no Brasil — não só em bolsa, como também no diferencial de juros.

Então, assim, temos alguns pontos a levar em consideração, mas particularmente, Vittor, eu não vejo o câmbio dando altos picos. Não vejo nem muita alta e nem muita queda. Acho que as incertezas, sim, geram um pouco essa expectativa. Tanto é que a Bolsa de Chicago já coloca quase 70% de chance de uma alta nos juros lá fora, e aqui a gente vê também a possibilidade de um corte de 0,25. Então esse delta (diferencial de juros) cai um pouquinho, o que pode fazer com que o câmbio suba ali a R$ 5,15. A gente tá em 5,08, 5,09… Ir a R$ 5,15 pode acontecer, mas não vejo isso como um grande problema. Como eu falei, ainda temos recursos entrando: commodities, mercado agro, diferencial de juros, e os fatores que fazem com que o dólar continue entrando.

Diferencial de Juros, Carry Trade e Eleições

Vittor:

Pô, você menciona o diferencial de juro. Queria desenvolver um pouquinho esse assunto porque a gente tem agora uma perspectiva de elevação da taxa de juros lá nos Estados Unidos por parte do Federal Reserve na próxima reunião, enquanto aqui no Brasil discute-se o contrário: a perspectiva de um corte agora de 25 pontos-base. Quero entender se esse diferencial, mesmo mitigado, pode impactar de alguma forma o mercado de câmbio e, evidentemente, se a gente já pode inserir nessas projeções a leitura sobre o risco eleitoral, que parece não estar muito precificado ainda na taxa de câmbio.

Marco Harbich:

Eu acho que o câmbio pode variar um pouquinho, mas não vejo grandes movimentações. Tem algum investidor que vai ter a expectativa de que esse delta não valha tanto a pena para correr o risco-país, então ele vai buscar ativos mais seguros, como o título público americano e o próprio dólar.

Mas a gente tem que tomar um pouco de cuidado porque muitos investidores fazem a operação de carry trade não visando Brasil–Estados Unidos, mas sim muito com o Japão. O Japão manteve a taxa de juros inalterada em 0,1%, mas os títulos de 10 anos do Japão já estão na maior rentabilidade dos últimos quase 40 anos, o que faz com que os investidores tenham que se desfazer de posições no mercado global e pagar seus empréstimos lá no Japão para honrar compromissos. Então, vejo um risco maior nesse sentido.

Sobre as eleições: o mercado e o investidor estrangeiro sabem o cenário político e não veem uma terceira via. Independente de quem for eleito ou reeleito, o investidor vê oportunidades. É por esse motivo que pesquisas eleitorais não estão impactando diretamente o câmbio de forma drástica. O investidor estrangeiro está focado nas oportunidades, independente do resultado eleitoral.

Risco Fiscal e Curva de Juros

Vittor:

A gente viu aquele incremento muito significativo da taxa de câmbio (do dólar frente ao real) principalmente quando houve a constatação por parte do mercado de que não haveria ajuste fiscal durante esse governo, no fim de 2024, quando a taxa ultrapassou R$ 6,00. Tivemos essa mitigação, apesar de não ter havido muita mudança estrutural ou sinalização de melhora das contas públicas. Queria entender o que mudou: o mercado deixou o risco fiscal de lado ou foi uma mudança principalmente em relação ao dólar e não à moeda brasileira?

Marco Harbich:

Olha, o investidor estrangeiro já sabe o cenário fiscal atual. Se houver uma mudança de governo no futuro, pode haver uma melhora e uma entrada maior de capitais, com consequente valorização do real.

Isso já está meio precificado pelo apetite do investidor estrangeiro no Brasil. Porém, se tivermos uma piora expressiva do fiscal, aí sim podemos ter uma saída maior de capitais. Isso impacta a parte longa da curva de juros (aumento de juros). O próprio Gabriel Galípolo menciona isso em seus comunicados: que a parte fiscal ainda é um grande motivo para a manutenção de juros altos por aqui.

Liquidez Global e Encerramento

Vittor:

Pois é, Marco. A gente tem acompanhado essa pressão na curva de juros norte-americana, principalmente papéis de vencimento mais longo pressionados também por conflitos geopolíticos como no Oriente Médio. Queria entender se esse contexto de juros elevados nos Estados Unidos e na União Europeia tem o impacto de diminuir a liquidez global.

Marco Harbich:

Em momentos de incerteza vale a máxima: “quem tem caixa é rei”. A liquidez pode diminuir um pouco por um enxugamento do mercado: quem tem recursos segura mais, e quem precisa de capital tem que pagar mais caro por ele. Então, sim, pode haver uma diminuição da liquidez, mas não vejo algo extremamente crítico, até porque as transações precisam acontecer e mantêm o fluxo circulando.

Marco Harbich é fundador da Gordon Capital, multi family office independente, especializada em gestão patrimonial e planejamento financeiro para famílias de alta renda.