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O que você precisa saber antes de pedir empréstimo

Tente fugir do crédito pré-aprovado, não aceite venda casada e escolha parcelas que caibam no seu orçamento. Por Isabel Filgueiras, Valor Investe — São Paulo

Publicado em 18/06/2019

Nesse momento da economia de vacas magras, muita gente tem recorrido aos empréstimos para conseguir fechar as contas do mês. Para pagar o aluguel, a prestação do carro ou até a escola das crianças. Se você se encaixa nessa categoria ou acha que pode se encaixar num futuro breve, é importante saber de algumas coisas, até para não cometer erros que várias pessoas que pegam dinheiro emprestado cometem e acabam dificultando ainda mais a própria vida.

Antes de mais nada, saiba que o credor, aquele que empresta, pode cobrar os juros que bem entender de você. Não há regulamentação que defina teto de juros. Tanto que os de cheque especial superam os 320% ao ano, segundo dados de maio de 2019 do Banco Central.

Para não se enrolar ainda mais nas finanças, lembre-se que não há caminho fácil. Pesquisar é preciso. O empréstimo deve funcionar como uma tábua de salvação no mar revolto das dívidas e não como uma bola de ferro que afunda ainda mais quem está se afogando. Fique atento a detalhes que podem esconder uma verdadeira cilada em forma de juros altos.

Facilidade custa caro

As linhas de créditos de mais fácil acesso, por serem pré-aprovadas e disponibilizadas automaticamente, são também as mais caras. Estamos falando aqui do cheque especial e do cartão de crédito. Elas concentram as maiores taxas do mercado.

A cobrança de juro elevado é um meio que os credores, em geral bancos, encontraram de reduzir as perdas com possíveis calotes. Essa é a justificativa oficial para a prática.

“Por serem empréstimos sem garantia, ao contrário de financiamentos de veículos ou casas, as taxas cobradas são muito maiores, pois o risco de inadimplência é alto e sem algum bem que possa ser executado para quitá-lo. Isso explica, tecnicamente, que o fácil custa caro.”Ricardo Gomes, planejador financeiro da Planejar

Existe ainda um outro fator a ser considerado nos créditos pré-aprovados. É a questão de como eles podem alterar o comportamento do consumidor. Por isso, não se deixe levar pela ilusão de que você “tem dinheiro” só porque tem limite no cartão ou cheque especial de até oito vezes o seu salário.

“O maior risco comportamental é quando o cidadão vê este limite de crédito pré-aprovado como extensão de sua renda e o utiliza sem nenhum critério para realizar impulsos consumistas.”Ricardo Gomes, planejador financeiro da Planejar

Na linguagem bancária, o empréstimo pessoal sem garantias é conhecido como CDC, Crédito Direto ao Consumidor. De modo geral, ele precisa ser solicitado. Alguns vêm pré-aprovados. Outros fazem análise de crédito, como consulta ao SPC e Serasa.

“O simples fato de precisar interagir com alguém e/ou aguardar uma análise de crédito, lembre-se, aqui não estamos falando do crédito pré-aprovado, já freia qualquer impulso consumista.”Ricardo Gomes, planejador financeiro da Planejar

Em um patamar mais razoável de taxas, vêm os juros para crédito consignado e financiamento de bens, como veículos e imóveis. Os consignados são aqueles descontados do salário ou mesmo da aposentadoria. Nesse caso, há garantia de pagamento, por isso, justificam os credores, é possível praticar uma taxa mais amigável.

Juros mais altos podem valer a pena?

É fundamental avaliar se o valor das parcelas para pagar o empréstimo cabe no seu orçamento. Do contrário, o que deveria ser uma solução para os problemas pode gerar mais caos. É o efeito bola de neve.

“Não adianta cobrir o corpo e deixar o pé de fora. A parcela tem que caber no bolso. Tentar negociar. Nem que estenda o prazo e pague uma taxa de juros maior. Não adianta deixar de pagar aluguel pra pagar a conta no banco.”Marco Harbich, planejador financeiro

Quanto mais altas as parcelas, maiores as chances de inadimplência e de contrair novas dívidas. Deixar de pagar contas básicas, como água, luz e telefone, também acarretam multas e juros, que podem ser até mais altos que dos bancos.

Talvez, valha mais a pena diluir o pagamento do empréstimo em mais parcelas por um juro maior, que arriscar não conseguir honrar o compromisso.

Direitos de quem pega um empréstimo

Foi pedir um empréstimo e saiu com um título de capitalização? Está errado. Os credores não devem, em nenhuma hipótese, condicionar o crédito em troca da compra de outro produto ou serviço.

“É proibida a imposição da venda de outro produto ou serviço, como, por exemplo, a contratação de seguro, para que o crédito seja concedido.”Procon/SP

Às vezes, essa tentativa de venda casada, algo expressamente proibido no Código de Defesa do Consumidor, vem disfarçada de desconto na taxa de juros. Exemplo: oferecem um juro mais atrativo se levar um pacote de produtos. Não pode. Corra para longe dessas armadilhas.

Pesquise e tente negociar taxas de juros em diversas fontes de crédito, diferentes bancos e financeiras. Note que os juros tendem a subir em relação ao tempo para quitação e ao histórico do pagador.

Quanto mais parcelas e mais prazo para pagar a dívida, maiores as taxas. Da mesma forma, quando se é tachado de mau pagador, a instituição presume aumento no risco de calote e aumenta os juros.

“O que se deve fazer é buscar a opção menos cara possível. Fuja dos mais fáceis, cartão de crédito e limite, e pesquise diferentes opções em diferentes instituições financeiras.”Ricardo Gomes, planejador financeiro da Planejar

Além do CDC, sem garantia, pode ser opção um consignado, em que o salário é garantia, ou um refinanciamento de veículo, explica o planejador.

Uma dica é aproveitar a onda de fintechs, empresas de viés tecnológico que prestam serviços financeiros. Elas chegaram para tentar ocupar lacunas no mercado. Algumas oferecem juros interessantes ou facilidades de crediário.

Saiba que…

O Procon também lembra que, uma vez tomado o empréstimo, você tem direito de antecipar parcelas. Sempre que isso ocorrer, os juros devem ser recalculados de acordo com a nova dívida, reduzida tanto em prazo de quitação quanto no valor em reais. O adiamento é um modo de suavizar as parcelas seguintes.

Se, por algum motivo, o tomador de crédito não pagar as parcelas, ele pode ser cobrado judicialmente. Ele se torna sujeito a multas com juros por dias de atraso. O nome também pode ser incluído no SPC e Serasa. Antes disso, no entanto, o cliente deve ser informado.

Há ainda a possibilidade de transferência de empréstimo, que é quando alguém renegocia a dívida com outra instituição por juros menores.

“Nesse tipo de contratação não pode haver aumento do saldo devedor, nem do número de parcelas a pagar. Nenhum custo relacionado à troca de informações e à transferência de recursos pode ser repassado ao consumidor, como tarifas de contrato, serviço de terceiros, IOF etc.”Procon/SP

Este conteúdo foi originalmente publicado pelo Valor Investe .

Marco Harbich é fundador da Gordon Capital, multi family office independente, especializada em gestão patrimonial e planejamento financeiro para famílias de alta renda.